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Filme mostra fim da geral do Maracanã como reflexo da elitização do RJ

Fonte: ESPN Brasil.

O fim da Geral é o fim da concepção de um estádio e a derrota de um projeto de cidade" foi a frase com que o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL-RJ, resumiu o fim da Geral do Maracanã, um símbolo das mudanças elitistas pelas quais passaram o Maior do Mundo nos seus últimos dez anos de história, bem como o futebol brasileiro, a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil. 

Dirigido por Pedro Asbeg e Renato Martins, dois torcedores rubro-negros de arquibancada, o documentário "Geraldinos", que estreia no festival "É Tudo Verdade", com depoimentos de Lúcio de Castro, Romário, Freixo e Zico, dois torcedores "arquibaldos" relembram a história do antológico local.

Já há dez anos, o Maracanã perdeu grande parte do seu brilho com o fim do local conhecido por seus personagens marcantes e pelo apelo popular: a Geral do Maracanã, o espaço mais democrático do futebol brasileiro. Nele, torcedores de todas as classes sociais se misturavam em prol da paixão pelo velho esporte bretão.

O último jogo da Geral, em 24 de abril de 2005, foi a vitória do Fluminense, então campeão carioca, por 2 a 1 sobre o São Paulo, campeão paulista daquele ano, com dois gols de Tuta, apenas mais um dos goleadores que comemoraram seus tentos com os fãs mais populares do futebol mundial.

O filme, foi lançado em São Paulo na última quarta-feira, e no Rio de Janeiro na última quinta-feira, 16/04, no Instituto Moreira Salles, na Gávea, com parte dos entrevistados presentes. Futuramente, o documentário será veiculado pelo Canal Brasil.

O diretor Pedro Asbeg busca contar não só a incrível história da Geral, que ele mesmo descobriu enquanto filmava o longa, como também traçar um paralelo com a elitização do futebol e da cidade do Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Pedro destacou a reflexão que busca trazer com o filme.

"A ideia de reflexão pelo filme passa por dois pontos. O primeiro, que as pessoas que não viveram a geral e aquele futebol emocionante de alguns anos atrás possam rever seus conceitos e admirar o nosso futebol tanto quanto o "pasteurizado" futebol europeu. Que o modelo de arenas não precisa ser copiado, temos uma cultura própria de futebol, de torcida, de estádio, e não precisamos copiar ninguém, não precisamos seguir um modo de se comportar. O segundo, que muitas pessoas que não enxergam esse modelo de exclusão do projeto de cidade tenham noção de que isso não foi por acaso, foi planejado, essa valorização artificial dos conceitos, enfim, que nada disso foi por acaso, e o Maracanã fez parte disso. Isso foi planejado desde o edital do Maracanã", disse Pedro Asbeg.

Torcedores rivais assistiam ao jogo sem qualquer divisão física, e problemas maiores nunca foram registrados. Era neste local que afloravam as demonstrações mais criativas tanto de aprovação quanto de indignação.

Apesar de importante para o Maraca e principalmente para o futebol carioca, a Geral não resistiu às imposições do Comitê Organizador do Pan-Americano de 2007, disputado no Rio de Janeiro. Como parte da elitização da sociedade e até mesmo do esporte, o geraldino ficou sem espaço no futebol, graças à famigerada "modernização" das arenas.

"Se a gente ficar pensando que só lá fora que é bom, daqui há alguns anos vamos sofrer muito e perder muito dentro dos nossos estádios, o calor que sempre transmitimos, mas mais do que isso, vamos ver que a criança vai começar a entender de futebol só pela televisão. Vai dar no mesmo torcer pro Flamengo ou Barcelona, Corinthians ou Bayern. Ela não vai entender que tem um clube para se torcer no Brasil e outro fora do Brasil. Se são todos pela televisão mesmo, é tudo igual", afirmou Pedro Asbeg.

Obras começaram a ser realizadas dentro do estádio, que teve o seu primeiro piso completamente modificado, dando fim também às antigas cadeiras numeradas. Em seu lugar, outras cadeiras que abrangiam todo o setor passaram a ser utilizadas. A reforma do Complexo do Maracanã, que custou mais de R$ 300 milhões à época, em tese deixaria as instalações prontas para os Jogos Olímpicos, que já eram objeto de cobiça das autoridades.

"Não acredito que tenha sido consequência, mas também não acredito que seja por acaso. Essas coisas, sem dúvida, andam juntas. Houve um momento em que Eduardo Paes e Sérgio Cabral (prefeito e governador do Rio de Janeiro à época) firmaram acordos de gaveta com Rede Globo, outras mídias e grandes construtoras para que todos participassem dos projetos no Rio de Janeiro, na construção desse projeto excludente de cidade, como Porto Maravilha, BRT, PAN, Olimpíadas e outras negociatas, que claro, não favoreceram só a estes, mas a outros grandes empresários. O Maracanã é um dos reflexos disso. Apenas mais um exemplo dessa exclusão das elites", disse Asbeg.

Escolhida como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, e posteriormente, das Olimpíadas de 2016, além da Copa das Confderações de 2013, ensaio para o evento máximo do futebol mundial, a Cidade Maravilhosa sofreu grandes transformações. O Maracanã foi apenas mais um dos capítulos da história conturbada da elitização na capital fluminense. O estádio, então, precisou ser novamente reformado, em obra escandalosamente superfaturada que ultrapassou R$ 1,5 bilhão.

O documentário mostra o polêmico processo de concessão do estádio. Marcelo Frazão, diretor de marketing da concessionária, classifica a geral como um espaço "extremamente incômodo, inseguro e quase insalubre", do qual "ninguém sente saudades". A visita das antigas celebridades da geral ao novo estádio, devidamente caracterizadas nas cores dos respectivos times, prova que o executivo está equivocado.

"Foi um momento de tristeza, saudosismo e melancolia. Eles já não reconheceram aquele como o lugar em que viveram boa parte dos momentos positivos de suas vidas", contou Asbeg.

Como parte do conjunto de leis imposto pela Fifa, os torcedores não poderiam mais assistir a jogos de futebol em pé ou mesmo com "pontos cegos". Assim, Antes habitado por personagens que traziam alegria, festa e descontração, a geral deu lugar à cadeiras retráteis que em nada reproduzem a alma do Maracanã.

No documentário, o maior artilheiro do estádio e ídolo rubro-negro Zico revela que tinha vontade de comemorar seus gols com o público da Geral, emoção que há dez anos, a politicagem e a elitização extirparam do futebol.

"Várias vezes eu tive vontade de pular daquele fosso e me jogar na Geral, mas não tinha como voltar, então não fazia essas loucuras (risos)", diz Zico, em declaração no documentário.

A modernização e a elitização, entretanto, se mostram como fenômenos mundiais. O Maracanã, antes único, é hoje apenas mais uma das várias "arenas" espalhadas pelo mundo.

"Por mais triste que seja, esse processo é mundial. Estava assistindo ao clássico de Manchester e pude ver que as pessoas estavam ali para conhecer o "Teatro dos Sonhos", tirar uma selfie onde o Wayne Rooney aparecesse de perto, não haviam torcedores de verdade do Manchester United nos lugares mais próximos do campo. É algo que me entristece como torcedor", pontuou Asbeg.

Confira, na íntegra, a entrevista de Pedro Asbeg ao ESPN.com.br:

ESPN.com.br: Como surgiu a ideia do filme, o que exatamente ele retrata? É de uma epoca específica, onde o torcedor, digamos, era "mais torcedor", mais vibrante.

Pedro Asbeg: Ao contrário de outros filmes, a ideia surgiu de forma espontânea. Renato e eu somos rubro-negros e "arquibaldos", e ao saber que a geral ia acabar, em 2005, faltando 10 jogos para o "fim da geral", resolvemos ir a um jogo naquele lugar para tentar entender o porquê daquele lugar ser tão especial e antológico. Foi um jogo fraco, Flamengo x Firburguense (a partida terminou com a vitória do Fla, por 1 a 0, com gol de Renato Abreu), mas só de estar ali naquele pedaço do Maracanã, nos sentimos muito bem, valeu a experiência, foi incrível, ficamos muito felizes e a razão disso tudo foi a geral. Saímos de lá e decidimos que íamos escrever um filme sobre isso. Voltamos lá e gravamos, com muito esforço, sem dinheiro. E essa falta de grana acabou nos fazendo adiar um pouco o projeto, que tomou corpo em 2010, quando mudamos um pouco nosso foco: queríamos falar não só sobre a geral, mas sobre o Maracanã e o processo que o Rio de Janeiro estava vivendo, a criação do projeto de cidade e a elitização não só do futebol, mas de todo o Rio.

O que você espera com a exibição do filme? Que tipo de reflexão?

A vontade, claro, é que o filme atinja muita gente, mas infelizmente nem sempre acontece. Tem muitos filmes que não alcançam isso, e nem por isso não alcançam o seu propósito. Nossa ideia de reflexão passa por dois pontos. O primeiro, que as pessoas que não viveram a geral e aquele futebol emocionante de alguns anos atrás possam rever seus conceitos e admirar o nosso futebol tanto quanto o "pasteurizado" futebol europeu. Que o modelo de arenas não precisa ser copiado, temos uma cultura própria de futebol, de torcida, de estádio, e não precisamos copiar ninguém, não precisamos seguir um modo de se comportar. O segundo, que muitas pessoas que não enxergam esse modelo de exclusão do projeto de cidade tenham noção de que isso não foi por acaso, foi planejado, essa valorização artificial dos conceitos, enfim, que nada disso foi por acaso, e o Maracanã fez parte disso. Isso foi planejado desde o edital do Maracanã.

Em que momento lhe pareceu que o torcedor popular estava perdendo força - para aí então as decisões de acabar com a geral e modernizar as arenas de "forma padronizada" tomarem conta do futebol mundial?

Não acredito que tenha sido consequência, mas também não acredito que seja por acaso. Essas coisas, sem dúvida, andam juntas. Houve um momento em que Eduardo Paes e Sérgio Cabral (prefeito e governador do Rio de Janeiro à época) firmaram acordos de gaveta com Rede Globo, outras mídias e grandes construtoras para que todos participassem dos projetos no Rio de Janeiro, na construção desse projeto excludente de cidade, como Porto Maravilha, BRT, PAN, Olimpíadas e outras negociatas, que claro, não favoreceram só a estes, mas a outros grandes empresários. O Maracanã é um dos reflexos disso. Apenas mais um exemplo dessa exclusão das elites.

Acredita que a dupla Fla-Flu tem força suficiente para romper com as federações e criar uma nova liga, seja regional ou nacional? Essa é a salvação? E os pequenos, podem ser contemplados com essa "nova liga"?

Sem dúvidas Flamengo e Fluminense tem muito mais força que a FERJ. Juntos, Flamengo e Fluminense tem mais força que quase tudo no futebol brasileiro. Eu acredito que a criação de uma nova liga seja sim a salvação para o futebol carioca, talvez para o futebol nacional e possa sim contemplar os clubes pequenos, que podem ter um calendário anual como as outras equipes e não apenas três meses de competição, que é ridículo. No início, essa liga será um pouco mais fraca, sofrerá pressão, será economicamente enfraquecida em relação aos outros campeonatos, mas não se pode ficar refém de Eurico Miranda e Ferj em pleno 2015. Se já era absurdo há 30 anos atrás, imagina agora? A possibilidade de se pensar nisso e ajudar os pequenos e o futebol brasileiro em si, a longo prazo, é enorme. Como dizia Sócrates: "Quando há crise, é o espaço perfeito pras revoluções acontecerem". Não podemos esperar que seja um momento perfeito. Não dá pra abaixar a cabeça. Temos que forçar, sim.

Ainda há espaço para o geraldino ou para o torcedor das camadas mais populares em tempos que a "austeridade financeira" é mais falada que os grandes craques? No filme vocês falam sobre isso?

Como não existe espaço? Claro que existe espaço. O que mais tem é espaço. Olha esses estádios vazios? É uma burrice total achar que um ingresso a 100 reais é melhor do que 100 ingressos a um real. Qual a diferença? Aí, vemos o que acontece agora. É um ciclo vicioso. Times ruins, mal na tabela, o torcedor não vai. O nível do futebol é baixo e o torcedor sabe disso. Como pagar caro para ver algo que não te interessa? O brasileiro não tem a cultura de carnês, de ver todos os jogos no estádio. Times bons levam o torcedor ao estádio independente do preço. Times ruins, dificilmente. É muita burrice de quem controla esse tipo e coisa.

O futebol ficou pior graças à elitização e modernização dos conceitos ou a relação de causa e consequência é ao contrário?

O processo de elitização é mais recente. O êxodo de craques é mais antigo, o processo de esvaziamento do nosso futebol é anterior. Há mais tempo estamos perdendo craques, produzindo menos grandes jogadores e cada vez mais, nos enfraquecendo. A elitização vem depois. Antes, havia ao menos um clima mais interessante nos estádios muitos torcedores enchendo os nossos campos de futebol, havia ainda um resquício da nossa cultura de futebol. Hoje em dia, vemos que tudo está mais fraco, graças, claro ao processo de elitização. Acho que reflete, sim, no enfraquecimento do futebol, mas é algo um pouco mais tardio.

A relação entre as federações estaduais e os clubes não acabam criando mais desigualdades sociais entre os torcedores de diferentes classes sociais?

Por mais triste que seja, esse processo é mundial. Estava assistindo ao clássico de Manchester e pude ver que as pessoas estavam ali para conhecer o "Teatro dos Sonhos", tirar uma selfie onde o Wayne Rooney aparecesse de perto, não haviam torcedores de verdade do Manchester United nos lugares mais próximos do campo. É algo que me entristece como torcedor.

E o 7x1? O futebol brasileiro tem salvação depois do vexame em casa? Acha que o torcedor dos clubes também foi afetado?

O vexame respinga em todo mundo. Todos foram afetados. É ainda mais difícil para quem não vive o futebol. É como uma separação com uma namorada, a perda de um ente querido. Não foi só uma derrota. O que devemos nos perguntar é: Vamos fazer algo sobre isso ou não? É muito triste ver que dependemos de pessoas como Marco Polo Del Nero, José María Marín, um cara ligado à tudo de ruim que tivemos nesse país, e ver que estamos novamente no caminho errado, com o anúncio do Dunga como treinador, não só pelo profissional, mas pelo que ele representa, o atraso, a mágoa, o rancor pela Copa de 1990, tratamento ruim à imprensa, enfim, são tantos pontos ruins, é incrível. É triste demais. Não sei como vamos sair dessa, mas acho que temos salvação, sim. Precisamos de mudanças, mas creio que somos capazes. Faltam pessoas com vergonha na cara e vontade de mudar isso tudo.

Como você enxerga a queda de clubes "pequenos" que já foram grandes no Rio, como Bangu, América e Olaria e em São Paulo com Guarani, Lusa, Juventus, Bragantino? Até que ponto isso influenciou a elitização no futebol carioca e paulista?

Isso me preocupa muito. Esses times fazem bem ao futebol de forma geral e por outro lado acho que estamos esquecendo da importância que tem o estádio na formação do torcedor. Se a gente ficar pensando que só lá fora que é bom, daqui há alguns anos vamos sofrer muito e perder muito dentro dos nossos estádios, o calor que sempre transmitimos, mas mais do que isso, vamos ver que a criança vai começar a entender de futebol só pela televisão. Vai dar no mesmo torcer pro Flamengo ou Barcelona, Corinthians ou Bayern. Ela não vai entender que tem um clube para se torcer no Brasil e outro fora do Brasil. Se são todos pela televisão mesmo, é tudo igual. É muito triste ver esse processo acontecendo, o encolhimento dos clubes pequenos, que tem reflexo nos clubes grandes, por tabela. Estamos nos enfraquecendo.

 

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